sábado, 29 de maio de 2010

Artigo sobre a estrutura da fala

FALA

por: Rosimeiry Ribeiro de Souza

Os grandes avanços sobre a fala e como se dá sua organização cerebral aconteceu nas duas últimas décadas, embora, esse assunto já acumule mais de um século de pesquisa. Durante muitos anos pesquisadores tem se debruçado para melhor compreender e explicar como o ser humano elabora suas competências e habilidades.

Os primeiros registros foram feitos por “broca” em 1861, quando ele afirmava que a fala motora se “localizava” nas zonas posteriores do terceiro giro frontal esquerdo, e quando em 1873, Werneck relacionou o terço posterior do giro temporal superior esquerdo como a função a fala sensorial. Essas duas explicações foram decisivas para inicio das pesquisas relevantes que explicavam quais zonas corticais participam na organização da fala e de que formas de distúrbios da atividade de fala em lesões de diferentes partes do cérebro.

Porém, para que as pesquisas acontecessem de fato, era necessário maior conhecimento e por falta de dados morfológicos e fisiológicos disponíveis e por conceitos psicológicos a respeito da fala insuficiente amadurecidos, os cientistas na época, tentavam explicar seus achados clínicos do ponto de vista de teorias psicológicas que deixavam muito a desejar. Muitas teorias foram debatidas, mas foi após anos de pesquisa que o famoso neurologista inglês henry head(1926) formulou uma teoria de como ocorria a afasia baseada na analise lingüística dos distúrbios da fala decorrentes de lesões cerebrais locais e na comparação dessas formas lingüísticas de afasia com a localização cerebral.

Assim nasceram os conceitos de afasia nominativa, sintática e semântica, que foram correlacionados, com alguma aproximação, a lesões de zonas particulares do córtex, porém, embora explicasse pela primeira vez a necessidade da analise lingüística das estruturas da fala que são perturbadas nas varias lesões cerebrais locais, seu erro foi tentar correlacionar determinadas estruturas lingüísticas diretamente com determinada áreas do cérebro. Essa teoria já não convencera quando formulada décadas antes por outros estudiosos.


ESTRUTURA PSICOLÓGICA DA FALA

A psicologia moderna considera a fala como um meio especial de comunicação que usa a linguagem para a transmissão de informações. Encara a fala como uma forma complexa e especificamente organizada de atividade consciente que envolve a participação do indivíduo que formula a expressão falada e a do individuo que a recebe. Correspondentemente, distingue duas formas e dois mecanismos de atividade de fala. O primeiro deles é a fala expressiva que começa com a ideia geral da expressão, que é codificada em um esquema de fala e posta em operação com o auxílio da fala interna convertendo estes esquemas em fala narrativa, baseada em uma gramática generativa. o segundo é a fala imprecisa que começa pela percepção de um fluxo de fala recebido de outra fonte, seguido por tentativas de decodificar o referido fluxo feito por análise da expressão falada percebida, identificando seus elementos significativos e reduzindo esses elementos a um determinado esquema de fala; este por meio da fala interna é convertido na ideia geral do esquema permeando a expressão, onde o motivo por trás da expressão é decodificado.

Vejamos agora claramente estes mecanismos que formam a estrutura psicológica altamente complexa e que incorpora vários componentes diferentes.

FALA EXPRESSIVA

A fala expressiva consiste na codificação de pensamentos em uma expressão expandida, e inclui uma série de componentes operantes. Fala expressiva é a fala repetitiva.

Lesões das zonas secundárias do córtex auditivo esquerdo levam os distúrbios de audição fonêmica, ou seja, troca de fonemas semelhantes, sua reprodução incorreta.

Primeiramente a presença de uma audição fonêmica é apenas uma das condições para a fala repetitiva intacta.

A segunda condição é a participação de um sistema suficientemente preciso de articulações.

A terceira condição essencial para a fala repetitiva é a capacidade de passar de um articulema para outro ou de uma palavra para outra. Em particular, de sílabas sem sentido ou de suas combinações entra em conflito com a reprodução de palavras foneticamente semelhantes, que possuem um sentido e estão firmemente estabelecidas. A intima participação dos lobos frontais é perfeitamente claro, assim, que uma lesão destas zonas do cérebro poderá privar o programa de sua necessária estabilidade, de modo que a repetição de uma determinada estrutura de fala será substituída pela repetição de uma palavra semelhante, firmemente estabelecida na experiência anterior do paciente. Tudo que precisa para verificar este fato é pedir a um paciente deste tipo que repita uma frase que é lógica ou estruturalmente incorreta, e ela a reproduzirá imediatamente na forma mais habitual, correta. “afasia de condução”.

A nomeação adequada de objetos ou de suas imagens é um nível suficientemente claro de percepção visual. Este fenômeno é descrito como afasia óptica na neurologia clássica, e, via de regra, surge em lesões das zonas têmporo-ocipitais do hemisfério esquerdo. Os pacientes com este tipo de afasia amnésia, por exemplo, não podiam formar idéias visuais suficientemente claras dos objetos que deveriam nomear.

A segunda condição essencial e auto-evidente para a nomeação normal de objetos é a integridade da estrutura acústica precisa da fala, da região temporal esquerda.

A terceira condição, e de longe a mais complexa de todas, para a correta nomeação de objetos, é a descoberta do significado apropriado, seletivo, e a inibição de todas as alternativas irrelevantes que surgem no curso de tais tentativas.

Um aspecto essencial que distingue este tipo de distúrbio de fala expressiva é que um pequeno auxílio mediante a apresentação do primeiro som ou da primeira sílaba da palavra desejada ajuda o paciente a encontrá-la imediatamente. Este sinal diferencia a afasia amnésia verdadeira da afasia acústico-mnêmica, que se baseia no caráter difuso da estrutura acústica das palavras (Luria, 1972).

A fala expressiva narrativa, ou expressão, começa com uma intenção ou plano, que subsequentemente devem ser decodificados em uma forma verbal e moldados em uma expressão de fala. É claro que ambos esses processos exigem a participação dos lobos frontais, que constituem um aparelho essencial para a criação de intenções ativas ou para a formação de planos. Se este motivo da expressão estiver ausente e nenhum plano for ativamente formado, é natural que não haja fala ativa espontânea, embora permaneçam intactas a fala repetitiva e a nomeação de objetos.

A fala de espontaneidade da fala que usualmente surge em lesões maciças do lobo frontal (que envolve o hemisfério esquerdo) ainda não pode ser encarada como uma desordem “afásica”; ela seria mais uma forma especial da falta de espontaneidade geral. Pelo contrário, o tipo de distúrbio de fala que discutirei agora ocupa um lugar precioso.

Segundo Vygotsky, (1934; 1956), a transição do plano geral para a narração exige a recodificação do plano em fala, e um papel importante neste processo é desempenhado pela fala interna, com a sua estrutura predicativa.

Este processo de transição do plano para a narração é realizada com facilidade por um individuo normal; ele permanece essencialmente intacto em pacientes com lesões locais das regiões temporais esquerdas ou parieto-temporo-ocipital esquerda, casos em que o paciente, embora não consiga encontrar as palavras necessárias, retém a entonação geral e a estrutura melódica da frase, que pode preencher com palavras totalmente inadequadas.

É esta forma do “esquema linear da frase” que se encontra substancialmente perturbada em pacientes com lesões das zonas pós-frontais inferiores do hemisfério esquerdo.

A experiência mostra que este defeito não se deve a qualquer ausência de plano ou a qualquer deficiência de palavras individuais. Ainda não conhecemos todos os mecânicos fisiológicos deste distúrbio, mais a explicação mais provável seria a de que as estruturas das zonas frontais inferiores o hemisfério esquerdo estão intimamente vinculadas à estrutura predicativa da fala interna, já que isto forneceria a explicação completa deste fenômeno. Tudo que se pode dizer é que esta forma de distúrbio de fala narrativa espontânea.

Uma série de estudos especiais mostrou que pode haver diferentes tipos de incapacidade para usar preposições, o que é bem conhecido na neurologia clássica como “afasia motora transcortical”. Neste caso, pacientes que eram capazes de repetir palavras separadas eram incapazes de articular frases ou de preservar a fala espontânea.

FALA IMPRESSIVA

A fala impressiva se refere a fala que recebemos por meio da fala que chega até o órgão da audição através do som e a primeira condição para a decodificação da fala recebida é o isolamento de sons falados precisos ou fonemas do fluxo de fala que atinge o individuo. As zonas secundárias do córtex temporal esquerdo desempenham o papel decisivo neste processo e as zonas posteriores da região temporal esquerdo são particularmente adaptadas para esse isolamento. Uma lesão dessas zonas interfere com a identificação dessas características fonêmicas.

O estágio seguinte da fala impressiva é a compreensão do significado de uma frase inteira ou toda uma expressão de fala conexa. A primeira condição essencial para a decodificação da fala narrativa é a retenção de todos os elementos da expressão na memória para a fala. Se esta condição não for satisfeita é impossível para o paciente entender frases longas ou uma expressão da fala narrativa. A segunda condição essencial para a compreensão da fala narrativa é a síntese simultânea de seus elementos e a capacidade não somente de reter todos os elementos da estrutura da fal narrativa como também de inspecioná-la. A terceira condição essencial para a compreensão da fala narrativa é a decodificação do seu significado é análise ativa de seus elementos mais significativos.

Assim, compreende-se facialmente que é absolutamente necessária a participação dos lobos frontais na decodificação de expressões complexas que exigem para isto um trabalho ativo, e que uma lesão dos lobos frontais, ainda que não impeça a compreensão de palavras e frases simples, impedirá completamente o entendimento de formas complexas de fala narrativa e, em particular, a compreensão do significado oculto de uma expressão complexa.

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