TIPOS DE LEITURA
Rosimeiry Ribeiro de Souza
Leitura é uma atividade fundamental desenvolvida pela escola para a formação dos alunos.
É muito mais importante saber ler do que saber escrever. O melhor que a escola pode oferecer aos alunos deve estar voltado para a leitura. (CAGLIARI, 1992, p.148).
Segundo Maria Helena Martins (1988), há três níveis de leitura que se relacionam, sendo todos numa mesma dimensão, são eles: sensorial, emocional e racional. O nível sensorial se traduz no primeiro contato com o texto ou situação. O nível emocional nos leva a interpretação subjetiva que o nível sensorial nos trouxe, enquanto que o nível racional (presente em textos narrativos) busca a interpretação correta, a objetividade dentro da situação ou texto em leitura. As novas leituras também trarão novas interpretações porque adquirimos mais maturidade e isso facilita melhor entendimento do texto lido. Com isso concluímos que quanto mais lemos melhor compreendemos, seja o mundo, uma situação ou um texto.
A leitura tem importância fundamental na vida das pessoas, pois ela amplia e integra conhecimentos além de propiciar a obtenção de informações em relação a qualquer contexto e área do conhecimento, assim como, pode constituir-se em fonte de entretenimento. Para uns, atividade prazerosa, para outros, um desafio a conquistar. A técnica da leitura garante um estudo eficiente, quando aplicada com qualidade abrindo cada vez mais os horizontes do saber, enriquecendo o vocabulário e a facilidade de comunicação, disciplinando a mente e alargando a consciência (RUIZ, 2002, p. 35).
Salomon (2004, p. 54) enfatiza que a leitura não é simplesmente o ato de ler. É uma questão de hábito ou aprendizagem. Além do incentivo e à promoção de espaços permanentes de leitura é preciso criar o prazer para este ofício.
A leitura nos insere em um mundo mais vasto, de conhecimentos e significados, nos habilitando inclusive a decifrá-lo. Ler é um movimento de interação das pessoas com o mundo e delas entre si e isso se adquire quando passa a exercer a função social da língua, ou seja, quando sai do simplismo da decodificação para a leitura e reelaboração dos textos que podem ser de diversas formas apresentáveis e que possibilitam uma percepção do mundo.
Sabemos que a leitura é um dos meios mais eficazes de troca de conhecimentos e de obtenção de aprendizagem na formação do indivíduo. Para entendermos a importância da leitura devemos primeiro entender o processo de leitura em sua profundidade, como esse processo se desenvolve. Partindo da reflexão de que a leitura não é somente decodificar palavras temos uma visão em dois caminhos: primeiro seria a visão do leitor como um decodificador de códigos linguísticos, ou seja, o individuo é capaz de decifrar o que está no papel em forma de códigos, sendo isso pouco bastaria para se fazer a leitura. O segundo ponto seria a leitura global: o individuo capaz de ler não só os códigos da língua, mas também de identificar as alterações que acontecem à sua volta.
Considerando esses dois pontos de vista e também dos indivíduos formados a partir de cada um deles, podemos dizer que o ponto de vista mais importante para a formação do indivíduo seria o da leitura global. Para melhor ilustrar essa posição, pode-se observar o decifrador de códigos como um mero receptor de informações, que de acordo com Martins (2007), não será capaz de compreender aquilo que está lendo, seja um texto de jornal, um livro ou uma atitude perante alguma situação. Sempre que se referir a um texto sua reação será sempre de rejeição, pois não poderá compreendê-lo ou contextualizá-lo, tornando a leitura inútil para obtenção de conhecimentos e produção de outros saberes a partir dos conhecimentos obtidos.
Às vezes passamos anos vendo objetos comuns, um vaso, um cinzeiro, sem jamais tê-los de fato enxergado. Limitando-se à sua função decorativa ou utilitária, um dia, por motivos os mais diversos, nos encontramos diante de um deles como se fosse algo totalmente novo. O formato, a cor, a figura que representa, seu conteúdo passa a ter sentido, melhor, a fazer sentido para nós (MARTINS, 2007, p. 8).
Esse exemplo deixa claro o porquê da leitura global ser a mais importante para a formação, pois um indivíduo assim é capaz de ver muito além de simples imagem, objeto ou código linguístico. Ele analisa cada aspecto da situação ou objeto traçando varias linhas de pensamento que são determinantes para a compreensão da leitura, e, por conseguinte, produção de seu próprio conhecimento.
Infelizmente existe em nossa sociedade indivíduos que são produtos desses dois pontos de vista sobre a leitura, o que acaba provando a importância da mesma na formação desses homens, sendo de forma boa ou ruim, trazendo a idéia que, mesmo com consequências opostas, a leitura é um determinante que influi de forma decisiva na formação.
Diante dessas afirmativas podemos ver o ato de ler como algo mais do que o decifrar, tendo mais conexão com o compreender para aplicar na realidade, o que faz com que tudo tenha sentido para o leitor, que lê o mundo a sua volta e torna seu conhecimento concreto.
A relação do homem com a leitura torna-se muito importante para que a mesma se estabeleça de uma maneira bem desenvolvida. Isso leva a uma análise mais profunda sobre o que é leitura, mostrando que há mais fatores que ainda não foram levados em conta para o pleno desenvolvimento dos leitores. Formação e leitura permeiam-se e completam-se mostrando mais um ponto que torna a leitura importante para a formação.
A leitura pode ser vista como um fator social, pois seu desenvolvimento, como já foi citado, tem relação com a bagagem do leitor, ou seja, sua vivência e capacidade de trazer o conhecimento obtido no processo de decodificação do código linguístico para sua realidade, dando a significação necessária para a produção do conhecimento. Sendo assim a relação do leitor com o texto deve trazer para a leitura uma visão de cumplicidade entre as duas partes, mostrando o que deve ser desenvolvido no indivíduo para uma boa relação entre ambos.
O leitor tem uma história que antecede a descoberta das palavras escritas, sendo resultado das experiências pessoais e coletivas vivenciadas no universo social e cultural em que se vive.
Essas idéias nos dão a certeza do que é a leitura em sua essência, como um instrumento de comunicação entre conhecimento e sociedade possibilitando que o indivíduo seja participante dentro de sua sociedade e tenha possibilidade de entender e implementar os conhecimentos produzidos em sua realidade.
Segundo Maria Helena Martins (2007, p. 36-37), podemos classificar a leitura em três níveis básicos relacionados entre si: sensorial, emocional e racional. Cada um desses três níveis de leitura corresponde a um modo de aproximação ao objeto lido. Esses três níveis de leitura são inter-relacionados, mesmo sendo um ou outro privilegiado, segundo a experiência, expectativas, necessidades e interesses do leitor e das condições do contexto geral em que se insere.
Devemos ter em mente que esses níveis de leitura, apesar de serem mencionados de forma dividida, agem em comunhão durante o processo, se inter-relacionando e trazendo os resultados diferenciados que se apresentam frequentemente.
De acordo com Maria Helena Martins (2007), essa reflexão sobre como a leitura se desenvolve e seus níveis no indivíduo mostram dois caminhos diferentes, que seriam a descoberta do prazer e mistérios do ato de ler, e levando-o a algo maior que a simples decodificação de palavras, e, por outro lado, a simplicidade também é revelada, sendo este um lado que os letrados não se preocupam em desmistificar.
2.1 Leitura: Nível Sensorial
O primeiro nível conhecido como leitura sensorial é tido como a habilidade elementar, pois desde que nasce o bebê usa os sentidos para se comunicar com o mundo. Se for tomado como base o desenvolvimento do ser humano, desde a sua infância, sabe-se que nos primeiros anos de sua vida, o corpo é o maior objeto de comunicação e troca de conhecimentos entre o ambiente e a criança, o que, por conseguinte, faz com que os sentidos sejam largamente utilizados.
A leitura sensorial vai, portanto, dando a conhecer ao leitor o que ele gosta ou não, mesmo inconscientemente, sem a necessidade de relacionalizações, justificativas, apenas porque impressiona a vista, o ouvido, o tato, o olfato e o paladar. Por certo alguns estarão a pensar que ler sensorialmente uma história contada, um quadro, uma canção até uma comida é fácil. Maria Helena Martins (2007, p. 42), faz o seguinte questionamento; mas como ter um livro assim?
A partir desse questionamento pode-se desenvolver o porquê da importância desse nível sensorial de leitura. Como foi citado, essa leitura dá ao seu portador a noção do que ele gosta ou não, ou seja, o que o atrai, mas de forma inconsciente. Mesmo assim, nesse momento estão presentes o prazer e a curiosidade. O prazer se manifesta como a sensação que premia a dúvida satisfeita, ou a realização daquilo que lhe proporcione isso, e a curiosidade para descobrir e conhecer mais sobre aquilo que lhe interessa. Unindo esse pensamento ao livro, o que salta da mente é a idéia do conhecimento e informações contidas nele em forma de texto, ou seja, signos a serem decodificados se for enfocada de outro ponto, pode-se ver o livro como um objeto que provoque prazer ou desgosto, adoração ou avessa, sendo esses sentimentos desencadeados pela sua forma, cheiro, cor tamanho, volume, e até som, provocado quando o folheamos, tocamos, cheiramos, alisamos, olhamos.
Daí se dá a importância dessa leitura, que se for utilizada de maneira correta, vai estimular a curiosidade tanto na fase da infância, que, segundo Maria Helena Martins (2007) se apresenta de forma mais marcante que nos adultos, sendo assim mais fácil de ser trabalhada e usada em prol do desenvolvimento da leitura quanto na fase adulta. A explicação da facilidade da criança em lidar com o livro pode ser encontrada na sua própria fase de descoberta, que a torna totalmente aberta à experiência, descobrindo no livro um tipo de “brinquedo” diferente por sentir um prazer similar ao proporcionado por um brinquedo, onde se apresentam um formato peculiar e símbolos que ele vê e não consegue entender, e algumas vezes com figuras que ele pode ou não compreender. Em virtude desse emaranhado de novas formas, a criança vai tentando achar seus significados, o que os leva a desvelar o mundo das letras, e, consequentemente, da leitura.
Nessa fase de curiosidade e descobertas a relação com o livro antes de aprender a ler auxilia a criança a torná-lo significativo como um objeto que proporciona satisfação. No entanto há crianças que por vários motivos não recebem a oportunidade de contato sensorial com o livro. Neste caso existem duas possibilidades: a criança aceita o desafio de aprender a ler, porque entende a escola como um rito de passagem para a vida adulta ou tem uma experiência infeliz com a aprendizagem e não consegue representar mentalmente a escola como um tempo necessário para a vida.
Isso mostra que a criança precisa dar sentido à leitura antes de dominar o código linguístico. Permitir que as crianças manuseiem diversos tipos de livros e ler histórias para elas desde seu nascimento são formas de proporcionar o contato significativo com o livro proporcionando-lhes prazer. Ao ouvir um conto a criança sente-se atraída pelo som e pela entonação da voz e pelas ilustrações ela tem a oportunidade de relacionar a história contada com as gravuras.
Para que a criança tenha uma compreensão critica do ato de ler, é preciso que ela possa integrar a leitura com a realidade em que vive. A leitura critica torna-se possível por meio do texto literário por ser uma expressão floreada que apresenta uma visão de mundo, dos processos políticos, históricos e sociais. Ao tornar significativo o texto literário e estabelecer relações entre este e sua realidade, a criança acaba conhecendo melhor o mundo e a si mesma, além de adquirir mais vocabulário para expressar suas próprias percepções. O adulto já não tem a mesma abertura, pois o conhecimento do mundo que este indivíduo tem termina por paralisá-lo.
É uma pena que a leitura sensorial, tão importante para o desenvolvimento da criança não seja valorizada pelos que dominam a cultura letrada.
2.2 Leitura: Nível Emocional
O segundo nível de leitura conceituado por Maria Helena Martins (2007) como leitura emocional, também tem o seu grau de inferioridade trazido pelos que dominam a cultura letrada, como no caso da sensorial. Para muitos intelectuais esse estágio de leitura lida com os sentimentos, que podem implicar na falta de objetividade. Contudo, ela defende que essas causas apontadas não seriam uma regra, isto é, não aconteceriam da forma colocada pelos pensadores.
Podemos entender melhor essa visão analisando os atos das pessoas enquanto atores sociais, tornando claro que o combustível necessário pelas ações do homem na sociedade está ligado a emoção. A relação desse estágio com o anterior se faz necessária, elucidando que estes são parte de um processo maior. O indivíduo lê uma determinada situação e age de acordo com o que ele sente ao ver aquilo, omitindo-se ou interferindo, por exemplo. Essa leitura irá revelar o que o leitor está sentindo ou não sobre um fato acontecido ou sobre um conteúdo, influenciando na sua capacidade de assimilação e acomodação, fazendo com que o fato signifique algo, seja ele positivo, entrando em sua rede de conhecimentos, ou negativo, não tendo um impacto produtivo. Mas é sempre importante lembrar que essas impressões criadas pelo emocional não são irreversíveis. E perfeitamente normal que, ao reler um texto, ou repensar um fato ocorrido, o individuo mude sua opinião, tendo reações completamente contrárias.
Na leitura emocional emerge a tendência de sentir o que sentiria caso estivéssemos na situação e circunstancias experimentada por outro, isto é, na pele de outra pessoa, ou mesmo de um animal, de um objeto, de uma personagem de ficção. Caracteriza-se, pois, um processo de participação afetiva numa realidade alheia, fora de nós. Implica necessariamente disponibilidade, ou seja, predisposição para aceitar o que vem do mundo exterior, mesmo se depois venhamos a rechaçá-lo (MARTINS, 2007, p. 51-52).
Dessa forma fica evidente a capacidade de reversão do ser humano, ou seja, colocar-se na situação do outro de maneira fictícia com o objetivo de contextualizar suas ações e entendê-las. Contudo, é necessário que façamos um paralelo entre crianças e adultos, pois sabe-se que a reação de ambos perante a leitura é diferenciada. Mais uma vez temos evidências da facilidade da criança, pelo simples fato da novidade. Por que a criança está em formação, descobrindo coisas novas sobre o seu meio, todos os dias, o que a torna muito mais vulnerável para o despertar de seu emocional. Já em relação ao adulto, por ter o conhecimento e ter noção das consequências que determinadas atitudes podem causar, ele tende a bloquear esse lado emocional, buscando agir da maneira mais racional possível, obedecendo aos parâmetros pré-estabelecidos dentro da sociedade.
É por essa visão oposta que os adultos tendem a desvalorizar o olhar emocional da criança, o que passa a ser prejudicial à leitura. Uma pessoa que não foi despertada par ler o processo como um todo irá certamente valorizar única e exclusivamente o racional, como o estágio a ser atingido, transformando o ato de ler que deveria ser um momento prazeroso numa coisa que desperta a aversão às crianças e adolescentes, seres que necessitam muito desse veículo para obter o conhecimento. Para que eles não sejam afetados com isso, é importante que os adultos saibam também identificar os estágios da leitura, sabendo que até mesmo para a racionalidade existe um caminho através da emoção, o que leva a gostar ou não de determinados assuntos, ou até mesmo, escolher uma profissão.
Com o correr do tempo, outras preferências de leitura surgem, mas permanece a ligação inicial, a ponto de a mera visão de um filme ou exemplar dessas aventuras desencadear um processo nostálgico, não raro levando à retomada dos textos. Talvez então ocorra um distanciamento. Porém é mais comum nos deixarmos envolver com a mesma disponibilidade da infância ou adolescência (principalmente se não há testemunhas dessa recaída). E a releitura se desenvolve entre uma semiconsciência de que talvez o texto "não valha nada" bem como a imersão na magia que ele permanece oferecendo. "É a criança que ainda somos emergindo no adulto", possibilitando também conhecermo-nos mais (MARTINS, 2007, p. 55).
A partir dessa idéia de Maria Helena Martins torna-se possível esclarecer como a emoção age no ser humano, abordando principalmente o adulto, que mesmo cercando-se de vários obstáculos não consegue bloquear suas emoções, o que o alimenta durante toda a sua vida.
Isso vale para todo o tipo de leitura, seja para o trabalho, para estudo ou por lazer. É uma linha muito frágil, pois um livro que proporcione conhecimento para a função que a pessoa desempenha, pode ser tão agradável a seu gosto a ponto de se tornar algo prazeroso, não deixando de representar conhecimento para sua vida profissional.
Sabe-se que existem fatos que marcam a infância, que podem ser facilmente reconhecidos através das ações que dispensam a racionalidade, tão exaltada na sociedade. A mesma coisa irá acontecer com a leitura, proporcionando uma viagem de volta ao mundo infantil, onde serão redescobertos o prazer que aquele texto proporcionou, ou também pode transformar totalmente a sua visão e sensação perante o mesmo, desfazendo o encanto que esse material tinha sobre o indivíduo.
Por essa razão, Maria Helena Martins (2007) também trata essa leitura como uma "válvula de escape", pois nesse momento o leitor se desliga da realidade, dando ao mesmo a possibilidade de uma reflexão profunda. Por esse motivo, deve-se alertar para a permanência nesse estágio, pois este, onde a leitura emocional remete os indivíduos, podem se tornar apenas uma fuga da realidade, onde só ocorrerá uma ação de refugiar-se, protegendo-se do mundo e descarregando suas emoções, o que torna a leitura alienante. A intenção principal do ler pela emoção é o de construir um caminho que leve o ser humano ao ato de reflexão e contextualização e não de se tornar alienado.
Desse ponto, quando há a total consciência do desligamento para a reflexão aprofundada do material lido proporcionado pelo emocional, acontece o processo de racionalização, onde tudo o que foi sentido e externado é pensado e assimilado, tornando possível a construção do conhecimento. Começa a ser utilizada a leitura racional, que seria o último estágio para se desenvolver uma boa prática de leitura.
2.3 Leitura: Nível Racional
A leitura a esse nível intelectual enfatiza, pois, o intelectualismo, doutrina que afirma a preeminência e anterioridade dos fenômenos intelectuais sobre os sentimentos e a vontade. Tende a ser unívoca; o leitor se debruça sobre o texto, pretende vê-lo isolado do contexto e sem envolvimento pessoal, orientando-se por certas normas preestabelecidas. Isto é: ele endossa um modo de ler preexistente, condicionado por uma ideologia. Tal postura dirige a leitura de modo a se perceber no objeto lido apenas o que interessa ao sistema de idéias ao qual o leitor se liga. Muitas vezes se usa, então, o "texto como pretexto" para avaliar e até provar asserções alheias a ele, frustrando o conhecimento daquilo que o individualiza (MARTINS, 2007, p. 63-64).
Devemos agora diferenciar a leitura intelectual, que foi citada acima, da leitura racional. É perfeitamente possível que haja questionamentos sobre essas definições, pois essas duas palavras têm similaridades em sua etimologia. Contudo, para que o olhar da leitura global seja mantido, é necessário saber que o nível intelectual do ato de ler vem expondo em sua definição a ideologia elitista, pois estabelece padrões de leitura que eles, a minoria detentora dessa linguagem erudita, considera a correta, afastando as outras pessoas desse momento de produção de conhecimento.
Para melhor ilustrar essa posição contrária, pode-se relembrar as definições do estágio sensorial e emocional do ato de ler, tendo o sensorial como um canal de entrada para o novo, ou seja, as novas informações que irão fazer parte do intelecto do indivíduo, sendo os sentidos seus principais receptores. Já o emocional aparece como uma continuação, fazendo o leitor reagir aos estímulos externos recebidos pela leitura, externando suas emoções, mostrando gosto ou não por determinado texto ou livro. Também é importante lembrar que esse estágio torna possível ao ser humano se conhecer melhor, definir os seus gostos e efetuar o processo de reflexão aprofundada, onde o conhecimento é produzido de forma individual e singular, tendo a possibilidade de mudança mais tarde.
Apesar dessa ligação, o processo de leitura intelectual desconsidera essa importância, trazendo a ideologia do intelectualismo, priorizando única e exclusivamente o estágio de afastamento, onde o leitor analisa o texto de forma descontextualizada, o que para a formação do mesmo é descabido, pois não considera o que sente e o seu grau de envolvimento com o material. O prejuízo causado por isso é enorme, principalmente ao ter noção do olhar que a maioria das pessoas tem sobre a leitura, sendo este para elas uma atividade traumática e sem sentido para suas vidas.
Importa, pois, na leitura racional, salientar seu caráter eminentemente reflexivo, dialético. Ao mesmo tempo que o leitor sai de si, em busca da realidade do texto lido, sua percepção implica uma volta à sua experiência pessoal e uma visão da própria história do texto, estabelecendo-se, então, um diálogo entre este e o leitor com o contexto no qual a leitura racional é permanentemente atualizado e referenciado (MARTINS, 2007, p. 65-66).
Com isso, a leitura racional pode ser definida como o estágio que completa o processo, tendo implícita sua capacidade reflexiva, onde o leitor vai estabelecer uma série de relações entre o material lido, a história que envolve o mesmo e sua experiência, o que torna o conhecimento adquirido uma riqueza para o seu detentor, pois ganha significado. Também é importante elucidar que essas características transformam as verdades absolutas em verdades mutáveis, pelo caráter de construção e desconstrução que a leitura racional traz para o ambiente do leitor.
Maria Helena Martins (2007) alerta para o cuidado que deve ser tomado para não confundir o estágio racional com a investigação do texto em seu arcabouço formal. Ela diz que esse tipo de olhar pode acabar por eliminar a constante dinâmica que se defende nesse nível, entre leitor, texto e contexto. A falta desses componentes limitaria consideravelmente a leitura global, fazendo com que a compreensão seja prejudicada.
Vale ressaltar que a permanência da relação citada acima é o que vai permitir que o texto seja entendido em seu todo, mostrando que a estática pregada pelas antigas teorias psicológicas sobre a leitura não tomaram o ser humano como ponto de partida de suas pesquisas, mas sim, fizeram o contrário, não considerando essa variável importante para as mesmas.
O importante nesse momento é ter a noção de que todo esse processo envolvendo os três níveis de leitura acontece dentro do ato de ler, simultaneamente, o que descaracteriza essa apresentação hierarquizada, feita assim para facilitar o entendimento do ponto de vista em que a leitura foi contextualizada. Por isso, se dá a importância do desenvolvimento dos mesmos de maneira plena, pois havendo um equilíbrio ou, até mesmo, uma pequena diferença entre eles, todo o processo ocorrerá de modo satisfatório, isto é, atingindo o real objetivo da leitura, que seria a transmissão de conhecimento para a desconstrução do mesmo ou formulação de outros a partir da base conseguida.
Maria Helena Martins (2007) justifica essa visão de simultaneidade afirmando que pelo fato da leitura ser executada por um indivíduo, ou seja, um ser humano, e a tendência do mesmo é de inter-relacionar sensação, emoção e razão, buscando se expressar para compreender e dar sentido ao seu ambiente e a sua existência, conhecendo-se, seria impossível que esses níveis existissem e agissem de maneira isolada.
Cada um desses estágios é trabalhado ao longo da vida do indivíduo, ao contrário do que se pode pensar dizendo que cada um já nasce com a sua e permanece no mesmo nível.
Na verdade, à medida que desenvolvemos nossas capacidades sensoriais, emocionais e racionais também se desenvolvem nossas leituras nesses níveis, ainda que, repito, um ou outro prevaleça. Mas a interação persiste. Quanto mais não seja certas características de cada um dos níveis, as quais, em última instância, são interdependentes (MARTINS, 2007, p. 80).
Após o reforço dado a idéia apresentada sobre o desenvolvimento dos níveis de leitura, também são colocadas em evidência as características dos mesmos, mostrando como agem e o quanto podem ajudar no processo. Primeiramente temos o estágio sensorial, com tempo de duração determinado e abrangência limitada, sendo essas características justificadas pelo canal utilizado por ele – os sentidos. Logo depois, o estágio emocional apresenta características de volta ao passado, levando o indivíduo a um processo de retrospecção e interiorização, pois é mediado por suas experiências prévias.
Por último, o estágio racional mostra característica de avaliação, avançando no processo intelectual, transformando o conhecimento prévio em novos conhecimentos ou até em novas questões, possibilitando a ação de discernir sobre o texto lido.
Tendo essa visão estabelecida do homem como variável para o processo de leitura, se faz necessária uma mudança no paradigma do ato de ler, ou seja, substituir o antigo olhar de coisa mensurável para estabelecer o homem como agente de seu desenvolvimento dentro da leitura.
Com isso pode-se ver claramente o desenvolvimento do ser humano ligado ao ato de ler, o que torna de suma importância que o indivíduo tenha domínio sobre a leitura global, que será determinante na maneira como esse homem irá utilizar os conhecimentos oriundos do ambiente para seu próprio proveito, e, consequentemente, para a própria sociedade.
É em virtude dessa relação constante entre homem, sociedade e leitura que fica provada a importância do ato de ler na formação do indivíduo e a urgência de uma queda de paradigma, onde o homem não tem importância alguma.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário